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Temer a morte é tolice!
12:58, 17/5/2007
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“Por que não devo me preocupar com a morte?”, indagou o discípulo de origem ocidental ao mestre oriental. E o mestre, depois de sorrir enigmaticamente respondeu: “É simples, enquanto você estiver vivo a morte ainda não aconteceu e, se ela ainda não aconteceu, por que se preocupar com ela? Quem se preocupa com aquilo que ainda não aconteceu, no mínimo é tolo. Observe o jogador de tênis. Se mover a raquete antes que a bola chegue, perderá a rebatida. Caso o faça depois, também falhará! “Só isso? – prosseguiu, curioso, o discípulo”. O instrutor, seguido pelo aluno, caminhou emudecido entre pacíficos tigres e ovelhas e sentou-se ao chão para descortinar a paisagem. Assim demorou pelo menos uns cinco minutos antes de prosseguir respondendo. “Achou pouco? O que lhe disse reduz enormemente as preocupações e amplia sua força interior. Se for inteligente tal revelação talvez até prolongue sua caminhada sobre a face da Terra e a torne mais feliz. Raciocine comigo: estando você vivo, não há sentido em pensar na morte e, estando morto, não precisará mais se preocupar com o assunto. Caso fixe a mente na morte tendo ela ainda não ocorrido, você é um tolo desesperançado e se já estivesse inequivocamente morto adiantaria reclamar do fato? Ou, vendo-se por outro ângulo, seria possível reclamar do fato? Não há, portanto, qualquer razão lógica ou emotiva para se inquietar. Se não ocorreu por que reclamar e se já ocorreu para que reclamar? É, por acaso, difícil entender essa corriqueira verdade? ”. O discípulo inclinou a cabeça, à guisa de mesura, mas rebateu: “Ótimo, mestre, porém acho que não seja tão simples. E no caso de uma pessoa doente? A perspectiva da morte a abaterá por completo e ela sofrerá! Todos que a amam sofrerão!”. Mestre Shang desceu uma suave colina seguido pelo aluno e, à sombra de grande árvore, apontou as parasitas que em inúmeros dos seus galhos se colavam. “Apego! Está vendo? Apego. As parasitas se apegam à arvore e a própria árvore a elas se acostuma. Assim ocorre, ainda por enquanto, entre você e a vida. Imenso apego. Imagine qualquer criança de posse de um brinquedo que muito gosta. Tente tira-lo e ela resistirá, chorará e esperneará. O brinquedo passou a fazer parte dela. Se for frágil se quebrará. Ela não pode viver sem ele. É sua posse. O brinquedo é ela, não toda ela, mas também ela. Assim como a criança, as pessoas estendem tentáculos invisíveis por toda a parte e na ponta desses tentáculos estão as parasitas ou posses das quais não querem jamais se livrar, se separar. Fazem-no porque estão vivas e assim, por estarem vivas, podem sacramentar posses! E, se morrerem, haja desespero, pois desaparecerão também as posses! Para tais pessoas, entre as quais você, caro discípulo, ainda se inclui, a vida não é ser e sim ter”. Interrompeu o aluno: “Então não se deve possuir nada e de nada gostar?”. Resposta: “Amar não significa apego, e sim doação. Um pedaço de terra fará com que você tenha o trabalho de cultiva-lo, embeleza-lo e respeitar a vida nele contida. Isso é amor. Você será servo desse pedaço de terra e não seu senhor. Quem ama serve. Por que pensa que estamos aqui, nesse mosteiro, longe de tudo e de todos? Simplesmente porque aqui podemos, de comum acordo, nos educar para servir sem que algum pretensioso de fora dos nossos limites geográficos surja com sua impávida ignorância e queira nos comandar. Pela simples falta de utilidade, onde a sabedoria está presente, o poder político automaticamente desaparece, com o devido perdão pela ironia”. O discípulo insiste: “E a pessoa doente? “. O mestre prossegue caminhando e, depois de algum tempo, volta a falar: “Tornando-nos sábios vamos embora dessa dimensão apenas quando for de nosso desejo. Nossos corpos são feitos do mesmo material básico que a tudo compõe, ou seja, o átomo. Se o átomo, em si, não fica doente, como poderíamos ficar doentes a não ser que inconscientemente o quiséssemos? Como pode haver um coração doente se os átomos que constituem o coração, qualquer coração, jamais ficam ou podem ficar doentes. A mente, com o passar do tempo, implanta o que quiser no corpo. Tudo vai depender da crença de cada um. Os átomos constituintes básicos do corpo não agem como se tivessem vida autônoma e vontade própria. Eles não se juntam em reunião e decidem: agora vamos doer, inchar e sangrar. Eles não se agregam ou desagregam à revelia de um poder maior, que é a nossa mente. Mesmo quando se trata de uma gripe você fica doente porque admite que seu corpo pode não resistir com total imunidade a um vírus que está perturbando maciçamente vizinhos, amigos ou familiares. O que você decreta acontece. É difícil fugir aos padrões. Quando você é criança bem pequena e vai ao enterro de um avô já estarão, através disso, decretando seu destino. Dizem como você poderá morrer e, mais ou menos, quanto no máximo poderá viver. Pensam que tais padrões são a causa de tudo que se observa quando, na verdade, eles são tão somente efeito do que coletivamente se pensa. Nunca esqueça que a mente sempre vem primeiro. É o que se pensa que produz o efeito e não o efeito que nos faz pensar desse ou daquele modo. Não se está obedecendo a leis ditatoriais e sim, desde há milhares de anos, está-se criando a partir da mente repetitivas situações nocivas que, a poder da constância com que o fenômeno prejudicial ocorre, fazem o papel de leis imutáveis. O homem precisa perceber que sempre comandou a si mesmo. Disso não se pode fugir. O problema, então, não é o homem aprender a comandar-se a si mesmo e sim faze-lo de forma correta. O miserável, inadvertidamente, comandou-se na maioria das vezes para ser miserável. O triste comandou-se quase sempre para ser triste. E foram sinceros no comando. Quando tentaram fazer o contrário, perderam-se em interpretações teatrais pífias, digna dos apupos do mais despreparado dos assistentes. Faltou autenticidade. E então prevaleceu o pior. Nesse mosteiro, não é o que eu disser a você que deve prevalecer e sim o que você indicar suavemente a si mesmo. Procure uma forma de pensar e agir com autenticidade dentro do panorama que você quer implantar. Procure um modo de sonhar acordado. É importante que não sinta vergonha de aprender comigo. Evite a revolta interior. Eu também aprendi com outros e outros com outros tantos. Faça com que sua morte só não possa ser evitada se você assim decidir”. E o aluno pediu licença para falar: “Com base no que o mestre descreveu, considero que os seres vivos foram dotados da capacidade de produzir milagres imensos, apenas não foram avisados disso”. O mestre apoiou: “Estão produzindo milagres sim, mas ao contrário, ao inverso. E com isso muito se prejudicam. Porém não devemos olhar as desgraças humanas como discrepantes. Até que você acorde você merece estar dormindo e caindo. Ah! Antes que você pergunte vou responder à sua última indagação. Preste bem atenção: se a vida prossegue após a morte física você não terá de se preocupar porque, em sendo isso verdade, meu caro discípulo poderá facilmente e com alegria comprovar o fato. E, se a vida termina por completo após a morte física você também não terá de se preocupar já que não possuirá consciência alguma e não poderá, por estar completamente morto, lamentar o fato. Só os vivos podem se lamentar, caro discípulo. Então entusiasme-se com algumas poucas lamentações mas limite-as ao máximo pois elas são a pior maneira de comprovar a vida!”. Antonio Catelani, jornalista, e-mail:catelaniantonio@yahoo.com.br |
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